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Fé religiosa, enfermidade e morte

Postado por editor em 22 de outubro de 2010

Engenheiro Eletricista: Marcus Vinícius Ferraz do Amaral CREA: 37.325/D

Atuação: Consultor em empresa de Engenharia Elétrica e professor dos Cursos de Engenharia Elétrica e Fonoaudiologia da PUC Minas.

Fé religiosa, enfermidade e morte

Em relação à fé religiosa, acredita na existência de Deus?

Concreta, palpável, visível e inquestionável. Deus é eterno; é atemporal; está no passado, presente e futuro; é uma energia benigna e está em todos os lugares. O que precisamos é de perceber um pouco mais a presença dele.

Quando está sentindo uma dor física ou um sofrimento espiritual considera que essa dor é um castigo de Deus?

Não, de forma alguma. Eu vejo a dor como uma manifestação de alguma enfermidade ou algum tipo de lesão que o seu corpo apresenta. E como o corpo é uma máquina, é passível de algum tipo de desgaste, ou alguma engrenagem que não funcione bem. Não que a dor, por via de regra, tenha esse significado, mas para chamar a atenção que alguma coisa não está bem no aspecto funcional do seu corpo.

Quanto à questão da dor espiritual, eu acredito que seja mais interessante você voltar para dentro de si, para suas próprias convicções de fé e fazer uma reciclagem.

A enfermidade em si mesma é uma perda total da liberdade?

A enfermidade é em quase sempre, o momento de parar para refletir em como está a sua vida, e isso pode ocasionar uma mudança de conduta. Tentando exemplificar, aconteceu comigo: três anos e meio atrás eu sofri um infarto; eu vejo isso como um sinal de que alguma coisa no meu dia-a-dia não estava indo bem, talvez trabalhando demais, ou preocupado demais com coisas periféricas ou secundárias.

Então o grande arquiteto do universo me mostrou que eu estava no limite, no momento de dar uma parada, dar uma reciclada, voltar os olhos pra si e para as pessoas que eu amo e refletir nas preocupações do meu dia. Eu tenho trabalhado para ter uma vida mais confortável ao lado de quem eu amo ou  tenho trabalhado para acumular riquezas? Então eu vejo o infarto como uma chamada para eu fazer uma reavaliação de como eu estava vivendo. A consequência foi que eu larguei um dos dois empregos que eu tinha, e desse modo, eu tenho muito mais tempo para a minha esposa e para as minhas filhas. Paradoxalmente, a minha qualidade de vida melhorou.

Então a enfermidade pode ser uma oportunidade de crescimento?

Sem dúvida. É importante analisar como você convive com a enfermidade, pois certamente te trás algumas limitações. Eu por exemplo, gostava muito de jogar futebol, mas eu tenho mais de 50 anos, jogar futebol pra quê? Talvez o momento seja de refletir e entender que uma limitação devido a um problema de saúde não quer dizer que a sua qualidade de vida piorou.  É interessante você redirecionar os seus exercícios diários em busca do equilíbrio. Hoje eu valorizo uma boa leitura.

A enfermidade leva a perda ou ao aumento da fé?

Aumenta a fé. Quando não se tem é muito difícil de lhe dar com a perda, principalmente de quem se ama muito. Se você não está mais sentindo presente, tocando, sentindo o cheiro ou algum contato físico da pessoa e de repente a pessoa desaparece, se não existir um referencial em sua vida, eu acredito que você se perde. Então vamos vivendo um dia após o outro e essa sensação de perda leva a sensação de paz, principalmente quando você tem certeza que fez o que foi possível fazer.

Ter uma fé religiosa ajuda a viver com mais paz, serenidade e resignação a enfermidade?

Claro. Acredito que todo mundo tem que ter uma fé e ler a bíblia, não interessa como você interpreta os textos religiosos, pois a interpretação é muito subjetiva. Não interessa a religião que você professa, eu acredito que precisamos ter um referencial de fé. O homem é um ser muito místico, desde a antiguidade, o primeiro Deus era o trovão, depois o raio, depois o fogo e assim evoluiu até que possamos trabalhar com a fé da maneira que procedemos.

Em relação à morte, você a vê como algo inevitável?

Sim. À medida que o corpo é uma máquina, e que ela tende com a atividade diária a se desgastar, mesmo que sofra eventuais manutenções, é natural que o nosso corpo venha a envelhecer e num dado momento ocorra uma falência metabólica ou sistêmica. Mas a morte física, porque o espírito jamais morre, tem um pensamento que diz que se a pessoa que você ama e está no seu coração, mesmo que ela tenha morrido, ela ainda vive.

A aceitação é muito difícil?

Nós nunca estamos preparados para perder alguém que muito se ama. A minha primeira experiência com a perda de uma pessoa querida foi muito traumática. A perda material que aconteceu com a minha mãe foi abrupta, não houve uma preparação; ela faleceu devido a um problema cardíaco. O fato de ela ter partido daqui, desta frequência, desta energia, a privou de viver situações que a fariam sofrer, então eu vejo que Deus está subtraindo disso. E hoje a minha relação com ela é muito mais tranquila, apesar dela não estar presente eu a sinto muito mais próxima. Logo depois aconteceu com o meu pai e mais recentemente o meu irmão mais velho, que sofreu de câncer, e assim você vai acompanhando o sofrimento, tentando se mostrar solidário, e isso faz com que você evolua espiritualmente.

Tem medo do que lhe acontecerá após a morte?

Não, absolutamente. No momento em que eu sofri o infarto, eu pensei em Deus, senti a sua presença e pedi para que me permitisse ficar com as minhas filhas, que na época eram muito pequenas. Não era medo da morte, era pensando nelas com a minha ausência na figura de pai.

Você vê a morte como o final de tudo?

Não. Nesse sentido, a frase: fazer da interrupção um caminho novo, diz muito.

Há uma interrupção na nossa vida de carne, nossa vida de matéria, mas certamente um universo espiritual enorme se abre para todos nós. E é o que eu espero que aconteça comigo, se eu tiver mais qualidade que defeitos para viver em ambiente de paz, sem dor e na eternidade com pessoas amáveis.

A morte te traz um sentimento de solidão?

Sim e não. No primeiro momento, logo que ela acontece, a solidão acomete e pensamentos: “E agora? Estou ficando cada vez mais só.” também.  Então você começa a refletir e olhando as pessoas que estão ao seu redor, e que te amam também, isso faz com que você comece a utilizar mais delas porque sabe que a morte vira inevitavelmente, então você passa a valorizar o dia de hoje e aproveitá-lo ao máximo vivendo bem e feliz. E viver bem e viver feliz pra mim é estar com pessoas que eu amo e que me amam também, e procurando sempre, na medida do possível, ter uma força aditiva.

Nos momentos de sofrimentos, dores e angustias você reza com mais fé?

A minha oração é mais verdadeira quando eu estou em um momento de muita felicidade, quando acontece alguma coisa que me eleva, então eu procuro fazer uma parada nas atividades diárias e recitar um salmo em agradecimento.

Quando estamos sofrendo procuramos a Deus com muita facilidade, com muita naturalidade, já o oposto é mais difícil, portanto eu tento exercitar isso sempre, por isso eu acredito que a minha oração por receber uma dádiva é mais verdadeira, vem mais do coração. Eu procuro sempre agradecer a Deus pela minha vida, minha família, meu trabalho, enfim, tudo que Deus me deu e me dá.

No sofrimento, na dor e na enfermidade é natural que você o procure, até mesmo como uma fuga, um refúgio ou um amuleto, e quando as coisas estão bem demais acabamos esquecendo de sua existência.


Considerações:

O fonoaudiólogo no âmbito hospitalar, principalmente no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), atuará de forma interdisciplinar, no tratamento de pacientes com enfermidades terminais que podem ter melhoras em seu tratamento devido a sua força interior, a fé religiosa.

Nesse contexto, o fonoaudiólogo estará diariamente lidando com enfermidades, fé religiosa (como instrumento de cura) e mortes físicas. Sendo assim, a entrevista acima é enriquecedora, visto que o professor Marcus Vinícius Ferraz do Amaral nos surpreende pelas respostas e seus argumentos.

Desse modo, independente da sua formação, a questão da fé religiosa sempre está envolvida no seu dia-a-dia laboral e familiar, embora o excesso de compromissos diários comprometa o nosso tempo para meditação. É um assunto que devemos ressaltar a sua significância.


Entrevista realizada em 08/10/2010, às 10h30min, no prédio 15 do Campus Coração Eucarístico da PUC Minas.

Stephanie Mayra de Moraes – Graduanda em Fonoaudiologia, 2º período/2010 – PUC Minas


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4 Comentários para Fé religiosa, enfermidade e morte

  1. Bianca disse:

    Nossa, é interessante como um professor que não é da área da saúde entende tão bem como lidar com as situações adversas ao corpo! Muito boa a entrevista!

  2. Shirlei disse:

    Adorei a entrevista!
    Agradeço ao Professor Marcus Vinícius por dividir conosco a sua experiência de vida e fé.
    Parabéns pela matéria!!

  3. Marília disse:

    Parabéns ao professor pelas belas palavras! Muito interessante a entrevista. Professor quanta sabedoria espiritual!!! abraço.

  4. Simone Aguiar disse:

    Marcus, que bom ouvi-lo e revê-lo com saúde. Sua inteligência e alegria de viver sempre foram inspiração nos tempos que fui sua aluna na Puc, no curso de engenharia elétrica, formada em 1991. Grande abraço!

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